segunda-feira, 9 de março de 2026

Depois das flores morrerem

Há uns tempos, lamentava por me teres abandonado. Hoje, olho para os estragos que fizeste por aqui e agradeço por não teres voltado. Ao olhar à minha volta, percebo que não estaria em segurança se continuasse a partilhar esta casa contigo.

Tu destruíste tudo, tudo o que aparentava ser indestrutível, sem qualquer motivo para tal. Fizeste algo que jamais me passaria pela cabeça que fosses capaz de fazer. Mas o que é certo é que aconteceu e trouxe imensas consequências para a minha vida. Não me refiro só às flores que mataste, deixando um vazio tremendo no nosso jardim. Refiro-me também ao impacto que toda essa destruição teve em mim.

Não deixei mais ninguém viver comigo, nem sequer aceitei ter vizinhos. Isolei-me, deixei de ver as coisas como garantidas. Agora, para mim, é tudo temporário, o que me faz desligar de tudo à minha volta, porque, se sei que algo vai acabar, o melhor é não o viver sequer ou, caso tenha de o fazer, viver da maneira mais desapegada possível.

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

No outro passeio

Às vezes, estou tão concentrada no que acontece no passeio em que caminho, que me esqueço que, no outro lado da rua, também há um passeio.

Um passeio igual a este, com pessoas que o pisam de um lado para o outro, às vezes cheias de pressa e outras cheias de calma.

Um passeio com pessoas que mudam constantemente de trajeto. Dão meia volta e caminham na direção contrária àquela em que pareciam tão confiantes a seguir. Trocam de passeio, por vezes fora da passadeira, de tanta que é a pressa de mudar. 

Um passeio com uma pessoa que se destaca entre as outras, quer pelas semelhanças que tem comigo, quer pelas diferenças. Uma pessoa que carrega uma dor enorme, tal como eu. É-me desconhecida, mas facilmente lhe leio o olhar, como se fôssemos seres humanos tão chegados que se conhecem como ninguém. Tem tristeza no olhar, como a de quem perdeu alguém. Alguém que lhe faz muita falta. Alguém que deixou uma marca gigante quando esteve presente e outra maior ainda quando partiu. Alguém que a deixou desamparada sem saber o que fazer. Alguém que não podia continuar a caminhar com ela naquele passeio e decidiu atravessar a estrada.

Essa pessoa é, realmente, muito parecida comigo. A única coisa que nos distingue, é o passeio em que estamos - porque eu decidi atravessar a estrada.

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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Bilhete de ida

Recebeste o bilhete e foste para a estação sem avisar ninguém, sem informar a que horas seria a tua viagem. Mal soube o que tinha acontecido, fui a correr para lá, tão rápido que as lágrimas que me caíam dos olhos nem tinham tempo de me escorrer pela cara. Eram-me logo roubadas pelo vento que soprava na minha direção. Quando finalmente cheguei, não houve tempo para recuperar o fôlego sequer. Assim que os meus olhos encontraram aquela linha vazia, procurei desesperadamente por ti, em todos os cantos da estação. Percorri todas as escadas e passagens que existiam naquele lugar. Mas o que encontrei foi apenas um sítio vazio e silencioso, que acabara de ser invadido pelo som do bater acelerado do meu coração. Tu não estavas lá. Tinha chegado demasiado tarde. Naquele momento, não sabia se aquilo que me deixava mais triste era não me ter despedido ou o facto de que a única imagem que teria de ti, dali em diante, seria uma sombra daquilo que um dia foste. Enquanto esta dúvida pairava no ar que me rodeava, um arrepio percorreu todo o meu corpo ao fechar os olhos e perceber que havia algo maior que a minha tristeza, algo maior que a solidão que senti quando não te encontrei naquela estação, algo capaz de te roubar de mim para sempre: o bilhete. Esse bilhete só de ida que chegou às tuas mãos e te obrigou a viajar para longe de mim, sem nunca mais poderes voltar. 

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terça-feira, 5 de agosto de 2025

Afinal, era meu

Lembro-me de dizer que o teu amor nunca seria meu, mas agora sei que estava errada.

Agora que olho para trás e vejo tudo o que vivemos, percebo que sempre tive o teu amor - assim como tu também tiveste o meu.
Mas só tive essa noção quando o perdi.

Maldita regra da vida, que dita que só percebemos o tamanho das coisas quando as perdemos.
Não que eu não soubesse que o sentimento existia, eu sabia, mas pintava-o como carinho - talvez fosse por isso que a pintura nunca ficava boa. Não era carinho. Era amor.

Carinho faz falta quando acaba. Amor deixa um vazio. Carinho é delicado, às vezes despercebido. Amor é intenso e marcante - faz questão de arder na pele, para garantir que demos conta da sua presença. Carinho, talvez, possa ser dado por outro alguém.

Mas o amor... esse tem de transbordar sempre do mesmo olhar. Caso contrário, nunca será amor. Não aquele amor.

Agora, a tua ausência virou rotina. Já não acordo com o teu bom dia, nem adormeço com o teu boa noite. Já não passo o dia a rir com as tuas piadas - que, por acaso, eram as minhas preferidas.

Mas o que realmente mexe comigo é esta dúvida que me invade todas as noites e me deixa sem dormir: "Como é possível só sentir que o teu amor foi meu, agora que te foste embora? Como é possível continuar a senti-lo na pele, mesmo sem estares presente?".

E depois, quando desisto de adormecer, fico a vaguear pelas memórias dos nossos momentos.
E surge outra questão: "Será que este amor também te vibra na pele quando pensas em mim? Será que também sabes que ele também te pertenceu?".

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quinta-feira, 12 de junho de 2025

O encontro - com o passado

Marcámos um encontro no café da esquina, onde já nos tínhamos rido tanto. Desta vez, não era para nos rirmos, mas sim para falarmos sobre nós, sobre a nossa relação (inexistente).

Cheguei mais cedo do que era costume, vindo de mim, e notei a tua cara de espanto quando viste que cheguei antes de ti.
Chegaste mais tarde do que é costume, vindo de ti, e notaste a minha cara de espanto quando olhei para o relógio e vi o quanto estavas atrasado.

Podia ser um encontro com a minha versão antiga, para falar sobre as minhas conquistas, mas preferi encontrar-me com o meu amor antigo. Nem sei bem por que é que foi essa a minha escolha, até porque, como tu me mostraste, não havia nada para falarmos.

Mesmo suspeitando que isso fosse acontecer, insisti, porque sempre preferi as coisas difíceis e desafiantes, mesmo sabendo que ia sair magoada no fim daquela conversa.
Por alguns minutos a teu lado, valia a pena.
Por umas trocas de olhares, mesmo que vazias e dolorosas; por uma conversa, mesmo que sem palavras, valia a pena a dor que sentiria, desde que, naqueles minutos, te pudesse ter do meu lado, enquanto saboreava aquele café - que nunca gostei de tomar, por ser demasiado forte - mas naquele dia contrariei as minhas vontades, na esperança de que fosse suficientemente amargo para me fazer ignorar o teu silêncio perturbador.

Sou capaz de apostar que marcámos aquelas duas cadeiras, de tanto tempo que lá estivemos sentados. Horas seguidas, não nos levantámos uma única vez, nem mesmo quando começou a chover. Por um lado, ainda bem que não o fizemos - as pingas geladas ajudaram-me a aliviar as lágrimas acumuladas nos olhos, que já não aguentava mais segurar.

O teu silêncio estava a ferir-me tanto que, a certo momento, a dor começou a parecer física. Uma dor que me impedia de me levantar e ir embora. Uma dor que parecia estar a ser controlada por ti, tal era a forma como me torturava e me obrigava a ficar ali, sentada naquela cadeira de madeira dura, debaixo daquela chuva fria, sem poder comer nada para me tirar aquele amargo da boca.
Uma dor que me obrigava a continuar a olhar-te nos olhos, até achares que me tinhas destruído o suficiente com esse teu silêncio repleto de indiferença, pestanejares, te levantares e ires embora, como se não tivéssemos sido um profundo amor no passado - não tão longínquo quanto fazias parecer.

Perguntei-te o porquê de tudo aquilo tantas vezes que até perdi a conta, mas em nenhuma dessas vezes te ouvi falar.
Só tive a resposta que queria quando desapareceste no meio do nevoeiro que se tinha instalado à nossa volta, de tão tenso que tinha ficado o ambiente naquele café.

A resposta era clara: o amor tinha acabado.

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segunda-feira, 3 de março de 2025

Viagem no tempo - A chegada

Bom, parece que chegámos. Primeira impressão: uau. Isto não é, de todo, aquilo que eu estava à espera. Não tem nada a ver com o sítio de onde partimos. Está frio aqui. Estou à procura do calor do teu corpo para me aquecer, mas está escuro e torna-se difícil ver onde estás. Por que é que o brilho que fizeste nascer nos meus olhos não está a iluminar tudo à minha volta como antes? O cheiro do teu corpo já não está entranhado na minha pele. Aliás... já não o sinto em lado nenhum. Ainda não te consegui encontrar. Porque é que não estás aqui, ao meu lado? Para onde foste? Nós não estávamos a navegar no mesmo barco? A remar na mesma direção? O que é que aconteceu? Não naufragámos, porque eu ainda estou aqui. Só resta uma opção: tu abandonaste o nosso barco. Deixaste-me a navegar sozinha até chegar aqui. Sozinha, sem nada, vazia. Nem sequer sei o motivo do teu desaparecimento, já não sei nada sobre ti. Na verdade, acho que sei onde te encontrar, mas não sei como chegar a ti, e isso é o equivalente a deixar de te conhecer.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Viagem no tempo - A partida

Vivemos meses em dias, foi como se tivéssemos viajado no tempo, como se nos tivéssemos teletransportado para o futuro. Nunca viajei muito, mas tenho a certeza de que, mesmo que tivesse percorrido o mundo inteiro, continuaria a ser esta a minha viagem favorita. Já vesti imensas roupas, mas nenhuma me aqueceu tanto como o calor do teu corpo, da mesma forma  que apenas encontro o melhor conforto no meio do teu abraço. O teu cheiro marca a minha pele mais do que qualquer outro perfume, e o teu toque é a cura para as minhas dores de cabeça. A partir do momento em que a tua voz chega aos meus ouvidos, todo o meu corpo é invadido por uma onda de paz, que me faz mergulhar de cabeça no mar mais calmo que alguma vez conheci. Deixei de ser uma gota, contigo sinto-me o oceano inteiro. Estamos a navegar no mesmo barco, a remar na mesma direção. O destino? Não sei. Só precisei de mapas para te encontrar. Agora deixo-me levar, deixo que o amor me guie e espero acabar sempre no conforto dos teus braços.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Mudança de casa

Finalmente fizeste as malas e mudaste-te para outra casa. Já não aguentava mais carregar a bagagem que deixaste em mim. Passava o tempo todo a arrumar o quarto que te tinha alugado, mas, quando chegava a noite, voltava a estar tudo desarrumado. Perguntava-me constantemente: "Para quê tanto trabalho se acaba sempre tudo da mesma forma?". Mesmo assim, continuava a esforçar-me para empilhar todas aquelas cartas que guardavam as nossas memórias, que representavam toda a nossa história. Tu, parado a olhar, de vez em quando ajudavas-me, passavas-me uma ou outra carta, mas sempre das tuas favoritas. Assim que a torre se encontrava estável outra vez, voltávamos a conversar, íamos passear pela nossa imaginação, os dois juntos, de mãos dadas, como se nada fosse capaz de nos separar. Depois de uns dias de animação, o número de saídas começava a diminuir, as conversas eram sempre muito mais curtas, mais sérias, sem graça, sem amor. Os tremores de terra voltavam, cada vez mais fortes, e, mais uma vez, a torre da nossa relação desmoronava-se.
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quarta-feira, 27 de março de 2024

Tu não morreste

Tu não morreste, mas sinto a tua falta como se não houvesse maneira de sentir o teu toque novamente, de ouvir a tua voz, ouvir o som da tua gargalhada, de me refugiar nos teus braços e libertar tudo o que tiver preso em mim, pois sei que nesse momento estou protegida. Nesse momento somos só nós, nós e o nosso amor.

Amor esse que, assim como muitos outros, não foi suficiente para te manter na minha vida. Talvez a responsável tenha sido a falta de maturidade, da tua parte, por não saberes fazer o melhor para ti, e da minha, por não saber rejeitar o pior para mim.

Sei que não foi por falta de luta que tudo se foi. Eu falei, abri-me e conversei sobre tudo contigo. O que estava bem, eu tentei manter. O que estava mal, eu tentei mudar. Toda a dor que estava a sentir, eu tentei aguentar para não desistir, mas que desistência seria essa se não um instinto de sobrevivência?
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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Jardim

Vivemos durante anos na mesma casa, cuidávamos do mesmo jardim, regávamos as flores juntas. Tu podias viver ali comigo para sempre. Eu ainda não tinha a minha vida organizada e, por isso, tive que me ausentar uns tempos para lutar pelo meu futuro. Pedi-te para cuidares das nossas flores enquanto não estava presente e prometi-te voltar sempre que pudesse. Depois de uns tempos, reparei que sempre que voltava a casa, havia cada vez mais flores mortas. Comecei-me a perguntar se realmente cumprias as promessas que me tinhas feito. Será que já não gosta de mim? Será que agora tem outro jardim e rega as flores com outra pessoa? Eram questões que não me saíam da cabeça. Nunca te questionei, porque parecias estar sempre à minha espera quando eu regressava. Se calhar devia tê-lo feito. De certeza. O tempo passou e as flores continuavam a morrer. Até que um dia, ao chegar a casa, deparei-me com todas as divisões vazias. Nem no jardim havia sinal de vida. Esperei longas semanas por ti, debruçada sobre a janela de um quarto que já não sabia de quem era. Enquanto olhava para o lado de fora, as lágrimas corriam-me pela cara, ao perceber que o nosso jardim, em tempos, um lugar cheio de vida e de amor, agora era apenas um monte de terra.
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Só mais uns segundos

Se soubesse que mais nenhum abraço iria ter aquele sabor, ter-te-ia abraçado só mais uns segundos.

Se soubesse que mais nenhum olhar me ia fazer sentir o que aquele fez, ter-te-ia olhado só mais uns segundos.

Se soubesse que mais nenhum toque me ia fazer sentir assim tão feliz, ter-te-ia tocado só mais uns segundos.

Se soubesse que mais nenhum beijo ia matar o meu desejo de ti como aquele, ter-te-ia beijado só mais uns segundos.

Se soubesse que nunca iria reviver aqueles momentos contigo, teria aproveitado só mais uns segundos.

Contudo, não sabia e, por isso, não houve mais uns segundos.
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Depois das flores morrerem

Há uns tempos, lamentava por me teres abandonado. Hoje, olho para os estragos que fizeste por aqui e agradeço por não teres voltado. Ao olha...