Às vezes, estou tão concentrada no que acontece no passeio em que caminho, que me esqueço que, no outro lado da rua, também há um passeio.
Um passeio igual a este, com pessoas que o pisam de um lado para o outro, às vezes cheias de pressa e outras cheias de calma.
Um passeio com pessoas que mudam constantemente de trajeto. Dão meia volta e caminham na direção contrária àquela em que pareciam tão confiantes a seguir. Trocam de passeio, por vezes fora da passadeira, de tanta que é a pressa de mudar.
Um passeio com uma pessoa que se destaca entre as outras, quer pelas semelhanças que tem comigo, quer pelas diferenças. Uma pessoa que carrega uma dor enorme, tal como eu. É-me desconhecida, mas facilmente lhe leio o olhar, como se fôssemos seres humanos tão chegados que se conhecem como ninguém. Tem tristeza no olhar, como a de quem perdeu alguém. Alguém que lhe faz muita falta. Alguém que deixou uma marca gigante quando esteve presente e outra maior ainda quando partiu. Alguém que a deixou desamparada sem saber o que fazer. Alguém que não podia continuar a caminhar com ela naquele passeio e decidiu atravessar a estrada.
Essa pessoa é, realmente, muito parecida comigo. A única coisa que nos distingue, é o passeio em que estamos - porque eu decidi atravessar a estrada.
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