Há uns tempos, lamentava por me teres abandonado. Hoje, olho para os estragos que fizeste por aqui e agradeço por não teres voltado. Ao olhar à minha volta, percebo que não estaria em segurança se continuasse a partilhar esta casa contigo.
Tu destruíste tudo, tudo o que aparentava ser indestrutível, sem qualquer motivo para tal. Fizeste algo que jamais me passaria pela cabeça que fosses capaz de fazer. Mas o que é certo é que aconteceu e trouxe imensas consequências para a minha vida. Não me refiro só às flores que mataste, deixando um vazio tremendo no nosso jardim. Refiro-me também ao impacto que toda essa destruição teve em mim.
Não deixei mais ninguém viver comigo, nem sequer aceitei ter vizinhos. Isolei-me, deixei de ver as coisas como garantidas. Agora, para mim, é tudo temporário, o que me faz desligar de tudo à minha volta, porque, se sei que algo vai acabar, o melhor é não o viver sequer ou, caso tenha de o fazer, viver da maneira mais desapegada possível.
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