quinta-feira, 12 de junho de 2025

O encontro - com o passado

Marcámos um encontro no café da esquina, onde já nos tínhamos rido tanto. Desta vez, não era para nos rirmos, mas sim para falarmos sobre nós, sobre a nossa relação (inexistente).

Cheguei mais cedo do que era costume, vindo de mim, e notei a tua cara de espanto quando viste que cheguei antes de ti.
Chegaste mais tarde do que é costume, vindo de ti, e notaste a minha cara de espanto quando olhei para o relógio e vi o quanto estavas atrasado.

Podia ser um encontro com a minha versão antiga, para falar sobre as minhas conquistas, mas preferi encontrar-me com o meu amor antigo. Nem sei bem por que é que foi essa a minha escolha, até porque, como tu me mostraste, não havia nada para falarmos.

Mesmo suspeitando que isso fosse acontecer, insisti, porque sempre preferi as coisas difíceis e desafiantes, mesmo sabendo que ia sair magoada no fim daquela conversa.
Por alguns minutos a teu lado, valia a pena.
Por umas trocas de olhares, mesmo que vazias e dolorosas; por uma conversa, mesmo que sem palavras, valia a pena a dor que sentiria, desde que, naqueles minutos, te pudesse ter do meu lado, enquanto saboreava aquele café - que nunca gostei de tomar, por ser demasiado forte - mas naquele dia contrariei as minhas vontades, na esperança de que fosse suficientemente amargo para me fazer ignorar o teu silêncio perturbador.

Sou capaz de apostar que marcámos aquelas duas cadeiras, de tanto tempo que lá estivemos sentados. Horas seguidas, não nos levantámos uma única vez, nem mesmo quando começou a chover. Por um lado, ainda bem que não o fizemos - as pingas geladas ajudaram-me a aliviar as lágrimas acumuladas nos olhos, que já não aguentava mais segurar.

O teu silêncio estava a ferir-me tanto que, a certo momento, a dor começou a parecer física. Uma dor que me impedia de me levantar e ir embora. Uma dor que parecia estar a ser controlada por ti, tal era a forma como me torturava e me obrigava a ficar ali, sentada naquela cadeira de madeira dura, debaixo daquela chuva fria, sem poder comer nada para me tirar aquele amargo da boca.
Uma dor que me obrigava a continuar a olhar-te nos olhos, até achares que me tinhas destruído o suficiente com esse teu silêncio repleto de indiferença, pestanejares, te levantares e ires embora, como se não tivéssemos sido um profundo amor no passado - não tão longínquo quanto fazias parecer.

Perguntei-te o porquê de tudo aquilo tantas vezes que até perdi a conta, mas em nenhuma dessas vezes te ouvi falar.
Só tive a resposta que queria quando desapareceste no meio do nevoeiro que se tinha instalado à nossa volta, de tão tenso que tinha ficado o ambiente naquele café.

A resposta era clara: o amor tinha acabado.

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